sábado, 10 de agosto de 2024

 

Histórias do antigamente

A tecedeira

«Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira» Lév Tolstói

 

   A vila do Gerês, ou Caldas do Gerês, é um lugar turístico de primeira categoria e renome internacional. Nos parques de campismo e nos hotéis alojam-se todos os verões, senão mesmo desde as primaveras até ao outono, muitos milhares de indivíduos de diversas nacionalidades. No decurso da minha vida de campista apaixonado visitei vezes sem conta o Rio Gerês, as selvas daqueles montes inigualáveis, os cavalos selvagens lá nos cimos que os romanos palmilharam e, antes deles, populações pioneiras, os celtas com toda a certeza.

 Não é, porém, das maravilhas naturais e de algum património edificado que vos queria falar. Isso é tarefa melhor para um roteirista, da fibra do Raul Proença e do José Saramago.

Ora pois, foi nessa freguesia de Vilar da Veiga que nasci há muitos anos, durante um longo período em que meu pai exerceu aí a sua função de funcionário público que, pela sua especificidade, o obrigava a transportar a família de um lugar para outro, do Minho a Trás-os-Montes.

  Não assisti obviamente à história que vou narrar, dada a minha tenra idade.

Não muito longa da nossa casa, mais para o interior dos matagais e bem perto do rio, viveu uma família muito feliz. Como costumavam dizer naqueles tempos de miséria bruta para muitos e confortável riqueza para uns poucos, eram “pobres mas felizes”. Conforme a narrativa transmitida pelo meu pai, a mulher parecera muito jovem quando ele, e a minha mãe, a viram pela primeira vez. A profissão do meu permitiu-lhe desde logo conhecer qual a do marido dessa jovem mulher : guarda florestal. Disse que compunham um exemplar casal feliz, pois foi assim que os meus pais deduziam que eles fossem, apesar de não serem visitas uns dos outros. Provavelmente baseavam-se no que se comentava por aquelas bandas, pois, como é sabido, tudo se sabe, ou se especula,  nas aldeias. E era assim quando Portugal do interior era povoado e pontilhado por inúmeras povoações , nos vales e nas serranias. Faço aqui mais referência ao Minho, evidentemente. Populações de pequenos lavradores e de pastores, que habitavam, tal como me constatei mais tarde , na vasta Peneda do Gerês até ao Soajo.

  Comentava-se a beleza juvenil da mulher (suponho, a partir desses ditos, que teria casado com quinze ou dezasseis anos de idade). Quando eram homens a comentar, é claro que não se referiam apenas à harmonia do rosto, mas, ou sobretudo, à formosura excitante dos seios, nádegas e pernas. A linguagem popular era parca de eufemismos e adjetivos, era direta, carnal e selvagem, nas vilórias e aldeias de antigamente. Do marido nada se dizia sobre esses detalhe nas conversas das mulheres enquanto desfolhavam as maçarocas de milho nas eiras e cantaloravam em uníssono cantigas hoje já lamentavelmente esquecidas. Se bem lembro do conto contado pelo meu pai o homem era visivelmente muito mais velho que ela, pouco frequentador de tabernas, zeloso trabalhador que ocupava dias e não poucas noites a vigiar as florestas, presumo eu, nada mulherengo e muito pouco falador. Com certeza absoluta terão sido católicos devotos, sem falhar às missas regulamentares e às procissões (aquelas procissões minhotas que, na minha versão, sempre achei mais alegres que tristes). E de que se ocupava a rapariga-mulher? Ora, do mesmo que as outras daquele Portugal profundo : do trabalho da pequena horta - as couves obrigatórias! - talvez das galinhas e algum porco que possuíssem (por isso se cultivavam as couves e não flores, pois com elas se cozinhavam os caldos e se alimentavam os porcos, esse animal - do qual tudo se aproveitava, depois de morto - que terá salvado muitos pobres da fome negra  !). Mas não só. Eram conhecidos os dotes da mulher para a arte do tear. Onde a aprendera ela a minha mãe não sabia, mas, a crer na lenda que se levantou depois dos acontecimentos que vou narrar, teria sido num mosteiro desconhecido, donde um homem que viria a desposá-la a fora libertar. Falei em lendas, a propósito, pois realmente os cachecóis e peúgas que ela fabricava no tear caseiro eram obra de arte muito cobiçada. Dizia-se (ou diziam os meus pais mais tarde quando eu já lá não residia) que a encomendas não faltavam. Por isso a rapariga era vista poucas vezes nas ruelas do lugar, menos ainda nas Termas onde pernoitavam nos bons hotéis os ricaços do Porto e até de Lisboa. Os fregueses levavam-lhe a lã e o linho já em fio e, em pouco tempo, iam buscar a encomenda que pagavam conforme as posses : umas vezes em dinheiro, outras vezes em géneros. As velhas beatas da aldeia atribuíam a engenhosidade da tecedeira a dons sobrenaturais.

  Ora sucedeu que a tragédia bateu à porta daquela casa onde reinava a harmonia entre homem e mulher e o bem estar de vidas modestas mas confortáveis. Contava o meu pai que certo dia, ainda madrugada, um habitante do lugar pôs-se, do átrio da igrejinha, a lançar gritos lancinantes de socorro. Vieram as gentes à portas e janelas. O guarda florestal, de nome António, fora encontrado por este habitante esmagado debaixo do velho jipe numa ribanceira! Todo o mundo acorreu ao local. Não existia médico algum num vasto perímetro medido em quilómetros, como era vulgar naqueles tempos (existiam muitos mais padres do que médicos por quilómetro quadrado). Existia um “endireita” (aqueles indivíduos com abundante clientela que “endireitavam” os ossos) e algum pessoal especializado que trabalhava nas termas do Gerês. Chamaram-se os bombeiros. O pobre homem não faleceu logo no instante do desastre : faleceu com a demora!

Foi uma tragédia. Dizia o meu pai que as mulheres da aldeia lamentaram em choradeiras públicas na igreja a sorte de uma rapariga tão bonita e grande artista no seu ofício, feita viúva sem oportunidade para gerar filhos do homem que visivelmente amava. Narra a Bíblia que o Paraíso terminou com a cena do pecado. Na verdade, os paraísos, isto é, as famílias felizes, terminam sem pecado. Sem culpa formada, vítimas de uma profunda injustiça celeste.

   Após o funeral- muito concorrido e muito triste - ninguém conseguiu consolar a viúva. Ninguém conseguiu sequer entrar na sua casa à beira do rio. Ninguém conseguiu que ela abrisse a porta para lhe encomendar peúgas, cachecóis e cobertores de “papa”. Viam-na na rua? Sim, porém quase que não tinham tempo para lhe falar : ela saía de manhã à hora em que toda gente andava ocupada, escapulia-se por caminhos de cabras e, raramente, alguém a via reentrar em casa, carregada de trouxas. Comentava-se à boca pequena que eram as compras necessárias de mercearia, talvez algum remédio do boticário para as insónias da solidão, tudo natural, mas também um fardo grande todas semanas, parecendo porém suficientemente leve, que indicava, por isso, ser lã e linho. Para que necessitava dessas matérias-primas para a sua arte de tecelagem se não vendia nada a ninguém? Especulava-se que seriam encomendas de algum ricaço dos hotéis, talvez andasse amancebada com algum, pois que tão bela e jovem, não iria ficar viúva muito tempo, ou, pelo menos, sem acolhimentos carnais. É da natureza, e ninguém levava a mal, embora , a ser verdade, isto é, a ser “apanhada em flagrante”, haveria de ser matéria de mal-dizer nas eiras e na tabernas.

  Foi passando o tempo inexorável. A viuvinha deixou quase de ser assunto. De vez em quando interrogavam-se as velhas em hora de má-língua : O que estaria a fazer metida em casa? Porque passava carregada de sacos de lá e linho se nada vendia naqueles lugares? Com quem conviveria uma mulher cuja juventude a obrigaria a procurar amizades, pelo menos femininas, como é natural, para combater as tristezas e a solidão?

  Chegou um tempo em que deixaram de vê-la. Deixaram de vê-la sair cautelosa e discretamente para regressar com as mercearias. Deixaram de a vislumbrar no trabalho da horta que foi estiolando (há muito que haviam desaparecido as galinhas e o porco). Deixaram de ver o fumo da lareira sair pela chaminé nos dias de inverno.

 Começaram gradualmente as gentes a preocupar-se. No fundo, os pobres dos vilarejos eram solidários e compassivos e eu não sei se ainda existe tal coisa hoje em dia. As velhas perguntaram ao pároco que por lá aparecia uma vez por mês fatal como um relógio suíço, o que deviam fazer. Até que, talvez sugerido por este, passadas já duas semanas, um habitante que era bombeiro voluntário, trouxe uns companheiros e a licença respetiva para esses efeitos, e arrombou a porta da casa.

  Mal conseguiram entrar. Não tanto pelo odor da morte, porque o cadáver da viuvinha mal exalava odores, mas por causa de um cachecol quilométrico que enchia toda a sala! Pelo menos foi assim que me contaram.

  A rapariga, que tinha sido educada num austero mosteiro de freiras, artista tecedeira dotada de uma habilidade que os devotos atribuíam a Deus, matara-se depois de, durante meses, na mais profunda solidão das solidões, tecer aquele estranho objeto artístico cheio de cores como uma pintura de Matisse! Gigantesco. Absurdo, belo, enigmático.

  Logo as velhas beatas analfabetas e temerosas forjaram a lenda de que a tecedeira divina havia sido tomada pelo Demónio. Este conhece muito bem as vulnerabilidades do ser humano. E como desviá-las. O meu pai dizia : até pode ter sido o Demónio a “entrar nela” (como diz a Bíblia) e a conduzi-la ao suicídio (proibido pelos dogmas católicos), mas verdadeiramente quem a levou nos braços foram os Anjos! Uma mulher daquele jeito e pureza de carácter, subitamente fulminada a sua felicidade por uma tragédia pavorosa e injusta, só mesmo para o Céu pode ter ido.

--------------Nozes Pires---------06/07/2024

quinta-feira, 11 de julho de 2024

 

 

Histórias do antigamente

A tecedeira

«Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira» Lév Tolstói

 

A vila do Gerês, ou Caldas do Gerês, é um lugar turístico de primeira categoria e renome internacional. Nos parques de campismo e nos hotéis alojam-se todos os verões, senão mesmo desde as primaveras até ao outono, muitos milhares de indivíduos de diversas nacionalidades. No decurso da minha vida de campista apaixonado visitei vezes sem conta o Rio Gerês, as selvas daqueles montes inigualáveis, os cavalos selvagens lá nos cimos que os romanos palmilharam e, antes deles, populações pioneiras, os celtas com toda a certeza.

 Não é, porém, das maravilhas naturais e de algum património edificado que vos queria falar. Isso é tarefa melhor para um roteirista, da fibra do Raul Proença e do José Saramago.

Ora pois, foi nessa freguesia de Vilar da Veiga que nasci há muitos anos, durante um longo período em que meu pai exerceu aí a sua função de funcionário público que, pela sua especificidade, o obrigava a transportar a família de um lugar para outro, do Minho a Trás-os-Montes.

  Não assisti obviamente à história que vou narrar, dada a minha tenra idade.

Não muito longa da nossa casa, mais para o interior dos matagais e bem perto do rio, viveu uma família muito feliz. Como costumavam dizer naqueles tempos de miséria bruta para muitos e confortável riqueza para uns poucos, eram “pobres mas felizes”. Conforme a narrativa transmitida pelo meu pai, a mulher parecera muito jovem quando ele, e a minha mãe, a viram pela primeira vez. A profissão do meu permitiu-lhe desde logo conhecer qual a do marido dessa jovem mulher : guarda florestal. Disse que compunham um exemplar casal feliz, pois foi assim que os meus pais deduziam que eles fossem, apesar de não serem visitas uns dos outros. Provavelmente baseavam-se no que se comentava por aquelas bandas, pois, como é sabido, tudo se sabe, ou se especula,  nas aldeias. E era assim quando Portugal do interior era povoado e pontilhado por inúmeras povoações , nos vales e nas serranias. Faço aqui mais referência ao Minho, evidentemente. Populações de pequenos lavradores e de pastores, que habitavam, tal como me constatei mais tarde , na vasta Peneda do Gerês até ao Soajo.

  Comentava-se a beleza juvenil da mulher (suponho, a partir desses ditos, que teria casado com quinze ou dezasseis anos de idade). Quando eram homens a comentar, é claro que não se referiam apenas à harmonia do rosto, mas, ou sobretudo, à formusura excitante dos seios, nádegas e pernas. A linguagem popular era parca de eufemismos e adjetivos, era direta, carnal e selvagem, nas vilórias e aldeias de antigamente. Do marido nada se dizia sobre esses detalhe nas conversas das mulheres enquanto desfolhavam as maçarocas de milho nas eiras e cantaloravam em uníssono cantigas hoje já lamentavelmente esquecidas. Se bem lembro do conto contado pelo meu pai o homem era visivelmente muito mais velho que ela, pouco frequentador de tabernas, zeloso trabalhador que ocupava dias e não poucas noites a vigiar as florestas, presumo eu, nada mulherengo e muito pouco falador. Com certeza absoluta terão sido católicos devotos, sem falhar às missas regularmentares e às procissões (aquelas procissões minhotas que, na minha versão, sempre achei mais alegres que tristes). E de que se ocupava a rapariga-mulher? Ora, do mesmo que as outras daquele Portugal profundo : do trabalho da pequena horta - as couves obrigatórias! - talvez das galinhas e algum porco que possuissem (por isso se cultivavam as couves e não flores, pois com elas se cozinhavam os caldos e se alimentavam os porcos, esse animal - do qual tudo se aproveitava, depois de morto - que terá salvado muitos pobres da fome negra  !). Mas não só. Eram conhecidos os dotes da mulher para a arte do tear. Onde a aprendera ela a minha mãe não sabia, mas, a crer na lenda que se levantou depois dos acontecimentos que vou narrar, teria sido num mosteiro desconhecido, donde um homem que viria a desposá-la a fora libertar. Falei em lendas, a propósito, pois realmente os cachecóis e peúgas que ela fabricava no tear caseiro eram obra de arte muito cobiçada. Dizia-se (ou diziam os meus pais mais tarde quando eu já lá não residia) que a encomendas não faltavam. Por isso a rapariga era vista poucas vezes nas ruelas do lugar, menos ainda nas Termas onde pernoitavam nos bons hoteís os ricaços do Porto e até de Lisboa. Os fregueses levavam-lhe a lã e o linho já em fio e, em pouco tempo, iam buscar a encomenda que pagavam conforme as posses : umas vezes em dinheiro, outras vezes em géneros. As velhas beatas da aldeia atribuíam a engenhosidade da tecedeira a dons sobrenaturais.

  Ora sucedeu que a tragédia bateu à porta daquela casa onde reinava a harmonia entre homem e mulher e o bem estar de vidas modestas mas confortáveis. Contava o meu pai que certo dia, ainda madrugada, um habitante do lugar pôs-se, do átrio da igrejinha, a lançar gritos lancinantes de socorro. Vieram as gentes à portas e janelas. O guarda florestal, de nome António, fora encontrado por este habitante esmagado debaixo do velho jipe numa ribanceira! Todo o mundo acorreu ao local. Não existia médico algum num vasto perímetro medido em quilómetros, como era vulgar naqueles tempos (existiam muitos mais padres do que médicos por quilómetro quadrado). Existia um “endireita” (aqueles indivíduos com abundante clentela que “endireitavam” os ossos) e algum pessoal especializado que trabalhava nas termas do Gerês. Chamaram-se os bombeiros. O pobre homem não faleceu logo no instante do desastre : faleceu com a demora!

Foi uma tragédia. Dizia o meu pai que as mulheres da aldeia lamentaram em choradeiras públicas na igreja a sorte de uma rapariga tão bonita e grande artista no seu ofício, feita viúva sem oportunidade para gerar filhos do homem que vizivelmente amava. Narra a Bíblia que o Paraíso terminou com a cena do pecado. Na verdade, os paraísos, isto é, as famílias felizes, terminam sem pecado. Sem culpa formada, vítimas de uma profunda injustiça celeste.

   Após o funeral- muito concorrido e muito triste - ninguém conseguiu consolar a viúva. Ninguém conseguiu sequer entrar na sua casa à beira do rio. Ninguém conseguiu que ela abrisse a porta para lhe encomendar peúgas, cachecóis e cobertores de “papa”. Viam-na na rua? Sim, porém quase que não tinham tempo para lhe falar : ela saía de manhã à hora em que toda gente andava ocupada, escapulia-se por caminhos de cabras e, raramente, alguém a via reentrar em casa, carregada de trouxas. Comentava-se à boca pequena que eram as compras necessárias de mercearia, talvez algum remédio do boticário para as insónias da solidão, tudo natural, mas também um fardo grande todas semanas, parecendo porém suficientemente leve, que indicava, por isso, ser lã e linho. Para que necessitava dessas matérias-primas para a sua arte de tecelagem se não vendia nada a ninguém? Especulava-se que seriam encomendas de algum ricaço dos hoteis, talvez andasse amancebada com algum, pois que tão bela e jovem, não iria ficar viúva muito tempo, ou, pelo menos, sem acolhimentos carnais. É da natureza, e ninguém levava a mal, embora , a ser verdade, isto é, a ser “apanhada em flagrante”, haveria de ser matéria de mal-dizer nas eiras e na tabernas.

  Foi passando o tempo inexorável. A viúvinha deixou quase de ser assunto. De vez em quando interrogavam-se as velhas em hora de má-língua : O que estaria a fazer metida em casa? Porque passava carregada de sacos de lá e linho se nada vendia naqueles lugares? Com quem conviveria uma mulher cuja juventude a obrigaria a procurar amizades, pelo menos femininas, como é natural, para combater as tristezas e a solidão?

  Chegou um tempo em que deixaram de vê-la. Deixaram de vê-la sair cautelosa e discretamente para regressar com as mercearias. Deixaram de a vislumbrar no trabalho da horta que foi estiolando (há muito que haviam desaparecido as galinhas e o porco). Deixaram de ver o fumo da lareira sair pela chaminé nos dias de inverno.

 Começaram gradualmente as gentes a procuparem-se. No fundo, os pobres dos vilarejos eram solidários e compassivos e eu não sei se ainda existe tal coisa hoje em dia. As velhas perguntaram ao pároco que por lá aparecia uma vez por mês fatal como um relógio suiço, o que deviam fazer. Até que, talvez sugerido por este, passadas já duas semanas, um habitante que era bombeiro voluntário, trouxe uns companheiros e a licença respetiva para esses efeitos, e arrombou a porta da casa.

  Mal conseguiram entrar. Não tanto pelo odor da morte, porque o cadáver da viuvinha mal exalava odores, mas por causa de um cachecol quilométrico que enchia toda a sala! Pelo menos foi assim que me contaram.

  A rapariga, que tinha sido educada num austero mosteiro de freiras, artista tecedeira dotada de uma habilidade que os devotos atribuíam a Deus, matara-se depois de, durante meses, na mais profunda solidão das solidões, tecer aquele estranho objeto artístico cheio de cores como uma pintura de Matisse! Gigantesco. Absurdo, belo, enigmático.

  Logo as velhas beatas analfabetas e temerosas forjaram a lenda de que a tecedeira divina havia sido tomada pelo Demónio. Este conhece muito bem as vulnerabilidades do ser humano. E como desviá-las. O meu pai dizia : até pode ter sido o Demónio a “entrar nela” (como diz a Bíblia) e a conduzi-la ao suicídio (proibido pelos dogmas católicos), mas verdadeiramente quem a levou nos braços foram os Anjos! Uma mulher daquele jeito e pureza de carácter, subitamente fulminada a sua felicidade por uma tragédia pavorosa e injusta, só mesmo para o Céu pode ter ido.

--------------Nozes Pires---------06/07/2024

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Histórias do Antigamente

 

Histórias do Antigamente- O meu tio-avô

 

No dia 25 de Abril de 1974 um homem matou-se. Não era novo, mas também não era velho. Foi pela manhãzinha, o sol anunciava um lindo dia. O apartamento era minúsculo, reduzido a um quarto com uma cama e um armário, a casa de banho ficava ao fundo do corredor do prédio e era, portanto, comum. Tinha como vizinhos um casal de jovens, talvez acabados de casar, ele não perguntou, uma mulher a quem o marido abandonara mas ele não perguntou, com uma filha adolescente muito barulhenta porque juntava-se com uma trupe de amigos no corredor. Também era vizinho um caixeiro-viajante que se servia do apartamento dele quando passava pela vila nas andanças com que ganhava a vida. Todos eram pobres. O homem que se matou também. Todos festejaram horas depois o derrube pela força do regime fascista. Ele não porque não soube a tempo. Se soubesse tinha-se matado da mesma maneira. Pormo-nos a adivinhar se o faria com um misto de infelicidade tremenda e uma felicidade tão profunda como jamais sentira outra na vida, é pura especulação. Um mês antes sentira-se muito mal, muito doente, o caixeiro-viajante que calhara estar em casa ouviu os seus lamentos, parede com parede, e chamou uma ambulância. Esteve internado três dias. Fizeram-lhe exames, descobriram rapidamente. O médico chefe do serviço disse a uma enfermeira para o levarem ao gabinete, queria dizer-lhe pessoalmente. Cumprimentou-o com uma espécie de estima, nunca saberemos, sou eu que estou a inventar, mas suponho que sim, pediu-lhe para se sentar, em pé ficou a olhar para a janela uns minutos como se estivesse distraído, mas não, e disse-lhe : “O senhor sofre de um cancro muito avançado, já não vale a pena ser operado, mas se preferir podemos tentar!”. Não sei qual foi a reação do homem, não é difícil de adivinhar. Ao fim de algum tempo, sentiu (deve ter sentido!) todas as dores do mundo, interrogou : “Quanto tempo, doutor?”. “Há quanto tempo o tem?”, “Não, senhor doutor, quanto tempo de vida?”. O médico tossiu, a disfarçar, e deu-lhe mais ou menos três meses, mas logo acrescentou : “Talvez um pouco mais...o cancro está muito adiantado.”.

Na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 o homem (supõe-se que já não dormia há várias noites e dias) sentou-se na modesta mesa onde comia as suas refeições que ele ia buscar a uma tasca do bairro (quando trabalhava, antes de meter baixa, comia no refeitório do navio e à noite apenas ingeria uma sandes para poupar algum dinheiro do parco ordenado), retirou da gaveta uma folha de papel de uma resma para cartas que ele nunca enviou para o correio e escreveu:

« Chamo-me José António Resende. Deixo o meu bilhete de identidade em cima da mesa para saberem que existi e possuía nome e local de nascimento. Para mais ficam a saber que fui trabalhar logo que fiz a quarta classe. Entrei com aprendiz no Estaleiro da Margueira e, mais tarde arranjei trabalho na Marinha Grande, foi o meu pai que conseguiu por meio das amizades que lá tinha, juntei-me à revolta de 18 de Janeiro de 1934, tinhamos toda a razão, não estou arrependido, passávamos todos muito mal com os maus ordenados, havia mães que quase não tinham que dar que comer aos filhos, alguns homens bebiam muito por causa de andarem desesperados, a GNR batia na gente por dá aquela palha, mas perdemos a luta, faltaram armas contra aquela fusilaria deles, meteram-nos em camiões, ficámos semanas presos, comíamos porrada, e eu e mais trinta e seis mandaram-nos para o Tarrafal. Fiquei lá para morrer, mas mandaram-me vivo para a Metrópole. Queixei-me de um problema nos pulmões, no hospital deram-me uns comprimidos, foram muito simpáticos, comia-se lá bastante bem, deram-me alta e a senhora enfermeira-chefe deu-me uma palmadinha nas costas e disse, lembro-me bem : - Já está rijo que nem um pero!- . O resto da minha vida foi prisão sim, prisão sim, trabalhei em muitos sítios em trabalhos diferentes, mesmo no norte, em Guimarães numa fábrica de curtumes, foi aí que eu decidi que estava farto daquele trabalho que não desejo a ninguém e decidi ir para Viana do Castelo onde um dia aproveitei um conselho de um amigo e meti-me nos navios que transportam o petróleo, meses no mar, limpávamos tudo dos navios, os conveses de madeira e os tanques depois de esvaziados. O médico disse: -Não sabemos como surgiu o cancro nos pulmões e porque teve essa evolução tão rápida!- Mas eu sei : foi a limpar os tanques sem proteção, só podia ser. Não tenho mulher, não conheci as alegrias que as crianças podem dar à gente, também estava sempre a mudar de trabalho, e depois os calaboiços da Pide que ela não me largava os calcanhares, e eu até nem fui muito ativo, só gostava mesmo era de fazer greves, de conseguir convencer o pessoal a fazer greve, acho que tinha jeito, e até gostava daquela força que a luta dá à gente, aqueles abraços que dávamos uns aos outros, os beijinhos que elas nos davam, as colegas claro, mas foi a limpar tanques sujos de petróleo que dei cabo de mim. Os meus parentes não sabem. Adeus! Para aqueles parentes ou amigos a que fiz algum mal, não sei se fiz, que me perdoem.”. E assinou : José António Resende, 25 de Abril de 1974.

Foi meu tio-avô. Irmão do capitão do último petroleiro onde trabalhou. Irmão do meu pai. O meu pai nunca se deu bem com este último e nunca ajudou o José António, porque este nunca lho pediu. No funeral estiveram três pessoas, além do padre : o meu pai e a minha mãe e eu. O meu pai depositou em cima do caixão um molho de cravos. Depois fomos festejar a Revolução. O capitão do navio petroleiro não esteve lá. Ontem disseram-me que ele morreu podre de rico.