domingo, 24 de maio de 2026

 Duas estórias verídicas numa só
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Nunca se apaixonaram um pelo outro. Entenda-se paixão física. Talvez porque se conheciam desde crianças, brincaram juntos, frequentaram as mesmas escolas. Talvez por causa dessa intimidade, talvez por múltiplas razões. Porque nos apaixonamos por esta e não por outra pessoa não conhecemos a causa. O que é curioso é isto : que o que sucedeu a um, sucedeu exatamente ao outro. Tinham a mesma idade, embora tivessem nascido em meses diferentes. Os progenitores dele : o pai engenheiro enveredou pela investigação na área da Química e ganhou celebridade com bons proventos numa longa estada nos Estados Unidos ; a mãe, professora do ensino primário. Os progenitores dela : o pai, rico empresário da construção civil ; a mãe, doméstica. Os interesses culturais e artísticos dos progenitores dele : a mãe, paralelamente ao ensino dedicou-se ao artesanato criando peças com tecidos têxteis que encantavam meio mundo ; o pai, o químico, adorava as pinturas do médico Abel Salazar e foi seu amigo até ao fim físico deste grande artista. Os interesses dos progenitores dela : no pai não se encontrava outro interesse senão no dinheiro; como gostava da mulher na verdade, pagou por longos anos a um professor de música que semanalmente, todas as quintas feiras, elevavam a mulher aos céus olímpicos da música clássica.
Os amigos diziam : porque não juntam os trapinhos? Porque não se casam um com o outro?, bisbilhotavam as amigas casamenteiras. Não, eram companheiros inseparáveis e pronto. Clara está que se apaixonaram, mas por outros. Ela teve os namorados que quis e pode ; ele, outro tanto com mulheres. Porque, de facto, objetivamente falando, nenhum deles era feio, bem pelo contrário. Nem feios, nem estúpidos.
Ele perseguiu nos mesmos estudos do pai : engenharia química, não mais a velha, mas a nova relacionada cada vez mais com a informática e a inteligência artificial. Ela, cursou humanidades, adorava ler os bons escritores desde a meninice. Ele, pelo contrário, ouvia as estórias que a mãe, professora, lhe lia à noite, mas adormecia depressa.
Ela casou e divorciou-se. Ele casou e divorciou-se. Não tiveram filhos, nem um, nem outro. Contribuíram reciprocamente para os divórcios de ambos : ela foi reparando, através do amigo, nas desilusões que o marido lhe causava cinco anos vividos entre pesadas dificuldades ; ele descobriu com surpresa as traições da mulher, reveladas e demonstradas pela amiga que a vigiava. Os divórcios deram-se com uma diferença mínima de meses. Ela ficou com a casa que ainda pagavam ao Banco, ele, no seu caso, ficou com os equipamentos técnicos e nada mais. Na verdade conservou o automóvel que já possuía há uma dezena de anos. A amiga também não se desfazia do seu, escolhido a conselho do amigo. Carros antigos duram uma eternidade e eles, como vivos fossem, adquirem as ardilosas astúcias com que os gatos se tornam senhores e donos em nossa casa. Portanto, o amigo e a amiga quando passeavam, trocavam de automóvel regularmente. E tiravam imenso prazer nesses passeios aos domingos.
Não frequentavam missas de religião nenhuma. Para ele existiam muitos deuses nas moléculas e nos fotões. Para ela, a natureza era deus e deus era a natureza.
Antes dos casamentos , durante os casamentos e depois deles, ela e ele encontravam-se sempre. Ela nunca ligou nenhuma ao pai, mas aborrecia-a a submissão que lhe parecia vergonhosa, da mãe. Por isso visitava-a irregularmente para não se encontrar com o marido dela. Quando este morreu precocemente com um enfarte fulminante, ela trouxe a mãe para sua casa quando esta já estaria num lar não fosse a filha.
Já o mesmo não sucedera com ele : adorava a mãe e admirava o pai acima de qualquer outro interesse. Aliás, copiava-o em quase tudo que fazia, fosse o pai ainda vivo, fosse depois do seu falecimento. A mesma celebridade como investigador. À exceção da estadia com altos rendimentos nos Estados Unidos : só se deslocou ali duas ou três vezes para apresentar inventos em conjunto com uma equipa internacional. Portanto, chamou os pais para sua casa quando eles envelheceram irremediavelmente e no pai excecionalmente inteligente se desenvolveu a doença de alzheimer .
Nos gostos estéticos, ela preferia a música clássica, ou erudita, à música ligeira. Ele preferia o jazz, no qual se tornou um profundo conhecedor : Mile Davis, Coltrane...Ela reconhecia nesses compositores e instrumentistas o seu alto valor e a natureza supreendente do improviso, da espontaneidade genial do saxofonista Charlie Parker ; porém, era Chopin que a fazia sonhar nos serões das noites de outono, ou a bagatela para piano solo nº 25 em Lá menor Para Elisa, de Beethoven. De modo que, quando viajavam juntos, o que sucedeu muitas vezes, na verdade regularmente, sempre nos finais do mês de Junho, pernoitavam no mesmo hotel 4 estrelas ao pé do mar para dividirem as despesas, intercalavam então, nos serões, à varanda, um Schubert, ela, com Ella Fitzgerald, ele, enquanto ela bebia gostosamente dois martinis gelados e ele, uns goles firmes do melhor uísque escocês com gelo..
Quando ela, de repente, num dia chuvoso de Dezembro, na cidade de Viena de Aústria, lhe confessou que se lhe revelara um cancro na mama, ele chorou como um menino chora a perda de uma irmã amorosa. Passou ela a necessitar de cuidados especiais e idas à cidade, mas não foi o marido, foi ele, o amigo, que cuidou dela, Já se divorciara quando faleceu, cinco anos depois de uma dura batalha. Se esta foi razoavelmente longa a ele o devia, pela fraternidade carinhosa, pela insuperável solidariedade que o levou até a renunciar a vários cargos elevados nas investigações de académico.
Ela faleceu com ele sempre ao seu lado no quarto do hospital, até ao dia em que entrou nos últimos cuidados. Em testamento deixava-lhe todos os seus numerosos livros de literatura , os discos de vinil preciosos, os artigos belíssimos de artesanato da mãe, e, sobretudo, os direitos de autor dos seus livros que haviam encantado gerações. Nesses cinco anos lutando contra o maldito, foi homenageada com prémios nacionais e internacionais, finalmente reconhecida como uma das melhores escritoras de contos para crianças. A casa, por decididas e robustas petições populares da localidade onde residia e por subscrição de inúmeros intelectuais, foi reconvertida em casa-museu.
Ele, o seu amigo, abandonou a vida dois anos depois. Achou que chegara o momento em que realizaria um sonho da sua vida de cientista fechado em quatro paredes : viajar no vasto e bravo oceano num veleiro ( ficaram na memória as estórias que sua mãe lhe contara para adormecer). Assim, contratou uma belíssima escuna com os seus dois tripulantes e traçou um cruzeiro arriscado até às ilhas gregas, talvez Ítaca. A meio da viagem (o veleiro provavelmente levaria semanas para lá chegar e se chegasse), numa noite de finais de Junho, sobre um mediterrâneo pacífico e acolhedor, ele deslizou sorrateiramente para a popa, enquanto o tripulante que fazia o turno vigiava o rumo e a velocidade, desceu para as águas lentamente como quem foge com um troféu, uma relíquia, um tesouro descoberto no fundo mar sem fundo, e ordenou ao seu corpo que não resistisse.
.................N. P.