sábado, 8 de março de 2025

 

Uma história banal

 

Conhecia-o vagamente. Melhor dito : brincámos juntos com outros garotos, porém guardo disso fraca memória. Muito mais tarde fui adicionando notícias e testemunhos e, desta forma, posso agora contar a história deste indivíduo, ou, pelo menos, a honesta versão.

  Pois que o nome verdadeiro dele tornou-se conhecido do público até uma certa época, vou dar-lhe um pseudónimo : Renato. Quem foram os pais? Sem adiantar detalhes que possam ferir descendentes, digo um pouco : o pai geria uma oficina mediana de calçado e a mãe era doméstica tal como todas as mulheres então da pequena ou média burguesia. Viviam bem, tinham automóvel - nos anos cinquenta era um luxo em Portugal -, um único filho para quem reservavam um sólido futuro. Muito católicos (a mãe cuidava da Igreja matriz da vila) enviaram o filho para o seminário (ainda existe) do qual saiu poucos antes de se sagrar padre por exigência dele. Dali foi para uma universidade do Porto. Devíamos ter mais ou menos a mesma idade, mas não me cruzei com ele. E essa já é uma parte da sua história de vida. Enquanto eu, como outros mais, andava ocupado com associações ilegais e outras atividades com as mesmas finalidades, Renato seduzia todas as jovens inocentes e as mulheres menos inocentes, que lhes poderiam trazer proveito. Para que fins? Os mais imediatos seriam tirar boas notas na universidade, cair nas boas graças dos Doutores (para isso esse mostrava imenso jeito) que, no final da licenciatura, o apoiassem numa carreira académica. E foi esse projeto imediato que ele alcançou. Então já não era obrigatória a Tese de licenciatura, contudo ele apresentou uma que plagiava em três quartos as ideias de outros, conforme foi verificado por um dos membros do júri, o qual emudeceu logo em seguida quando o Diretor o chamou à parte. Faltavam dois anos para o 25 de Abril. Renato tirou o máximo proveito da corrupção podre do regime moribundo. Entretanto prometeu casamento a três ou mais meninas de uma classe social um pouco mais abaixo, fugiu com as calças nas mãos por janelas e varandas de maridos furiosos e, de um deles, pessoa importante, recebeu uma sova de uns capangas e foi metido no xilindró por uns meses. O 25 de Abril estava mesmo a chegar. Assim se vê como o Renato, a quem os condiscípulos chamavam “O Rato”, era um Casanova sim, mas mais hábil que o verdadeiro pois conseguiu ser perdoado (não fez nem metade do tempo de cadeia)  pelo marido da senhora abusada (embora com seu consentimento explícito) mercê da influência de um jornalista e diretor de um poderoso jornal, homosexual, que o amava perdidamente. Apesar de alguns percalços Renato sabia passar por entre as gotas de um aguaceiro. Não tinha jeito, nem gosto, para nenhuma das artes (nem para sapatos como o pai), porém não lhe faltava engenho para outras.

Realizado o primeiro projeto, pelo menos nos seus começos, passou ao segundo : evitar a tropa, isto é, a guerra. Nada mais fácil : um oficial médico passou um relatório definitivo que o livrou em dois tempos. Em troca desse favor, Renato casou com a filha que já escondia uma gravidez censurável. Quando chegou o 25 de Abril divorciou-se porque tinha projetos novos incompatíveis com um militar spinolista que deu à sola para a Espanha. Há aqueles que são absolutos preguiçosos e. ainda assim ou por isso mesmo, lhe caem no colo todas as fortunas. Roberto tinha que lutar pelos seus planos, forjar estratégias como agora se diz, seduzir mulheres de maridos ricos, satisfazer na cama os apetites lúbricos de algum político governante, tentar sair por cima quando alguma peça falhava no esquema. Na Revolução adivinhou que o partido do terrorismo não lhe servia ao temperamento e ao propósito. Furou uma brecha nas fileiras cerradas dos “soaristas”, com alguma dificuldade porque a competição nessa área pela benção do chefe era feroz, conseguiu não ser defenestrado (em alguns casos esta expressão é adequada) da Universidade onde mal punha os pés, e deram-lhe um lugar não elegível de deputado à Assembleia que aprovou a Constituição., na qual ou para a qual vou a favor de uma “sociedade a caminho do socialismo”. Liderou tão eficientemente a campanha eleitoral da zona que lhe coube,que a “task force” de Soares indigitou-o para coordenador de campanhas futuras numa determinada região do país. Chegada uma nova campanha eleitoral, desta vez para as autarquias, foi tão eficiente que correram com ele por prometer a oferta de aspiradores a todo aquele que votasse PS, um esquema que combinou com uma empresa, e não cumpriu, porque, evidentemente, não era para cumprir (a dita empresa lucrou com uma promoção oportuna). Altos responsáveis do partido temeram ser castigados num futuro ato eleitoral. Prometer obras que não cumprirão está certo, prometer aspiradores que não se dão, é demais. Renato ainda argumentou que havia quem houvesse procedido como ele noutros lugares, porém nessa região concreta a vitória do PS não estava tão garantida como nesse lugares.

Renato não desistiu. Com a mesma tática, com a mesma empresa, aliciou chefes notáveis do PSD. Deram-lhe a coordenação da campanha para as legislativas, não cumpriu com eletrodomésticos e o partido venceu. Nessas regiões o PSD venceria sempre. Alguns estudiosos afirmam que estes fenómenos dependem do clima predominante nesta ou naquela região. O célebre pai do constitucionalismo burguês Montesquieu escreveu que a história e a política dependem da geografia. Não me atrevo a contestar a sumidade.

  Depressa Renato conquistou um cargo no aparelho do partido todo poderoso. Não aqueceu o lugar : o superior, vendo-se enganado publicamente pela esposa legitima que Renato seduzira, “fez-lhe a cama”. Renato não desistiu. Era ainda jovem, atraente conforme era demonstrado, detentor de uma retórica que aprendera do latim do seminário, arrastou a asa a uma subsecretária de um governo democraticamente eleito e encostou-se ao lado direito de um ministro. Automóvel oficial com motorista privado, viagens diplomáticas às Seicheles e ao Havai. De resto, neste arquipélago, caiu nas boas graças de um magnata norte-americano homossexual, membro daquelas elites que realmente governam o mundo, escolhendo quem deve ser senador ou presidente, e, com um simples telefonema para Portugal, o magnata converteu-o em cônsul num lugar que não lembro. O lugar era assaz importante, contudo a minha memória já me atraiçoa.

 Aliás, foi precisamente de traições que o percurso de vida de Renato esteve semeado. Hábil, cauteloso, determinado, engenhoso, trepou vários andares daqueles arranha-céus que muitos, como eu, só vêm por um binóculo. Trepou até aquele patamar em que o mais medíocre catedrático é cientista, o mais inábil empresário ganha fortunas na Bolsa, o maior finório é contratado como comentador pelas estações de televisão e o povoléu que o escuta acredita nas fábulas que ele conta desde que as saiba contar.

  Ficou rico, tão larga foi a fortuna que acumulou como advogado de um dos mais poderosos escritórios do Porto, e não tinha mais que quarenta anos de idade. Odiado pelos maridos que ele ultrajou, pelas mulheres mais ou menos idosas que ele pisou na escadaria com que se sobe na vida, desprezado pelos anjos que vigiam a Terra, suponho eu, Renato nunca desistiu. Frequentava concertos de óperas na Casa Da música, coletivas de pintores fabricados pelas galerias, congressos no estrangeiro em hotéis de cinco estrelas, tertúlias de escritores boémios nas quais fazia autênticas razias entre o género feminino...mas envelhecia. Precocemente.

  Preparava-se ele para festejar, à grande e à francesa, os seus sessenta anos de idade, quando constatou horrorizado que quase ninguém acorreu à festa. Apenas a mãe, muito idosa, que o pai já falecera há muito, e uns vizinhos ingleses que se haviam estabelecido no Algarve. Porquê?

 Porque um jornalista, fosse honesto ou pago por um inimigo odioso e implacável, publicou a biografia dele. Omitiu tudo que era positivo, o que não lhe foi difícil, e elencou, quase em modo cronológico, todas as traições, deslealdades, subornos e corrupções de Renato, uma das mais invejadas figuras mediáticas e cabeça de cartaz dos liberais.

Foi então que Roberto desistiu pela primeira vez. Talvez fosse por velhice. Temeu ir à Casa da Música e aos concertos, não sentisse ele desprezo nas elites. Aí não! De outros aguentava, das elites impossível! Toda a sua vida fora essa aposta estratégica : pertencer de direito às elites do reino.

  Sei quem é o jornalista, não sei quem foi que lhe pagou.

A maior parte da fortuna eclipsou-se no pagamento de avultadas dívidas, porque Renato, e é isto que vos quis contar, era um inveterado jogador! Nos casinos engendrou planos, conquistou mulheres com o mesmo vício, apostou forte, ganhou. Num dia dia infausto, perdeu.

  Não fosse o jogo, não fossem as dívidas às máfias, e Roberto estaria gozando uma velhice rodeado de amigos e admiradoras. As elites do Porto ou Lisboa toleram-se a si mesmas com os subornos, corrupções, punhaladas nas costas, especuladores, porém doentes do jogo que saem dos casinos aos trambolhões, bêbados e tesos, isso não.

 Arrivistas com sucesso, conheço eu mais de uma dúzia.  Casanovas como este indivíduo não conheci nenhum. Aguardo as suas memórias, tal como as escreveu o imortal seu homónimo.

------Nozes Pires---------27/02/2025

Sem comentários:

Enviar um comentário