sábado, 8 de março de 2025

 

SOFIA

 

Em tempos que já lá vão

mas que a memória não esquece

vivi eu e a minha Sofia.

Era num país escuro e quieto

em que a noite não amanhecia.

Foi numa cidade fechada e branca

que conheci a minha Sofia.

Sentados no cais dos navios,

olhei-a e foi a maré que subia.

Nesse país remoto,

em cada esquina, em cada rua,

sempre pares facínoras de vigia,

a cada passo que dávamos,

eu e a minha Sofia.

Toda ela era doçura

na voz, no jeito que ela sabia

inspirar calma e cautela,

não houve outra resistente

como Sofia.

Outros olhos belos, sim,

outros corpos que apetecia,

nenhum como a minha Sofia.

Sobre as dunas

as gaivotas passavam devagar

como se gostassem do que viam

a mim aos pés de Sofia.

Chegavam em voo rasante

fosse noite, fosse dia.

Roubei-a à família, sem dó,

e ela aceitou ser roubada.

Fomos de viagem, sem guia,

para longe, beber a vida,

clandestinos, eu e a minha Sofia.

Uma tenda num recanto,

defronte a uma baía,

apenas nós e as gaivotas,

e o oceano bravo de vigia.

 

Foi tão intensa a paixão

Naquele país que ardia,

(de tanto medo, de tanta audácia!)

que nada nos vencia.

Porém, a dor no peito

que ela sentia

foi a negra Morte que

a alcançou, à minha Sofia.

 

Não foi há muito

se a História por uma vida

se medisse.

Foi num país que não ria

sombrio como um enterro,

Na noite que não amanhecia.

E eu fiquei sozinho

debruçado no cais

À espera da minha Sofia.

 

-----------Nozes Pires--Março 2024

 

 

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário