SOFIA
Em tempos que já lá vão
mas que a memória não esquece
vivi eu e a minha Sofia.
Era num país escuro e quieto
em que a noite não amanhecia.
Foi numa cidade fechada e branca
que conheci a minha Sofia.
Sentados no cais dos navios,
olhei-a e foi a maré que subia.
Nesse país remoto,
em cada esquina, em cada rua,
sempre pares facínoras de vigia,
a cada passo que dávamos,
eu e a minha Sofia.
Toda ela era doçura
na voz, no jeito que ela sabia
inspirar calma e cautela,
não houve outra resistente
como Sofia.
Outros olhos belos, sim,
outros corpos que apetecia,
nenhum como a minha Sofia.
Sobre as dunas
as gaivotas passavam devagar
como se gostassem do que viam
a mim aos pés de Sofia.
Chegavam em voo rasante
fosse noite, fosse dia.
Roubei-a à família, sem dó,
e ela aceitou ser roubada.
Fomos de viagem, sem guia,
para longe, beber a vida,
clandestinos, eu e a minha Sofia.
Uma tenda num recanto,
defronte a uma baía,
apenas nós e as gaivotas,
e o oceano bravo de vigia.
Foi tão intensa a paixão
Naquele país que ardia,
(de tanto medo, de tanta audácia!)
que nada nos vencia.
Porém, a dor no peito
que ela sentia
foi a negra Morte que
a alcançou, à minha Sofia.
Não foi há muito
se a História por uma vida
se medisse.
Foi num país que não ria
sombrio como um enterro,
Na noite que não amanhecia.
E eu fiquei sozinho
debruçado no cais
À espera da minha Sofia.
-----------Nozes Pires--Março 2024
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